O pé diabético é a principal causa de amputação de membro inferior não traumática no Brasil. E a maior parte dessas amputações começa da mesma forma: uma ferida que a pessoa não sentiu se formar.
Órteses e calçados adequados são das intervenções mais eficazes e de melhor custo-benefício na prevenção dessa sequência.
Por que o pé diabético é diferente
Três alterações se combinam:
Neuropatia — a perda de sensibilidade faz com que a pessoa não sinta a pressão excessiva, o atrito, a pedra dentro do sapato ou a bolha se formando. O sinal de alarme que protege o pé simplesmente não chega.
Deformidade — a neuropatia também afeta os nervos motores, desequilibrando a musculatura do pé. Surgem dedos em garra, proeminência das cabeças dos metatarsos e, em casos avançados, o pé de Charcot, com colapso do arco. Cada deformidade cria um novo ponto de pressão.
Doença vascular — a circulação comprometida faz com que qualquer ferida cicatrize com dificuldade e infeccione com facilidade.
O resultado: uma pressão que um pé normal sentiria e corrigiria em segundos permanece por horas, formando calo, depois bolha, depois úlcera. Como não dói, a pessoa continua andando sobre ela.
O princípio do tratamento: descarga de pressão
Todo o cuidado ortopédico do pé diabético gira em torno de uma ideia: tirar a carga das áreas de risco e distribuí-la pelas áreas que toleram.
Dispositivos indicados
Palmilha de acomodação sob medida
O item mais importante. Feita a partir de molde do pé, em material que se conforma à anatomia e distribui a pressão. Ao contrário das palmilhas corretivas, ela não tenta corrigir — ela acomoda a deformidade existente e alivia os pontos críticos.
Pode incluir alívios específicos, com rebaixos na região de uma úlcera ou de uma calosidade recorrente.
Calçado terapêutico
- Câmara ampla e profunda para acomodar deformidades e a palmilha
- Interior sem costuras que possam gerar atrito
- Contraforte firme, para estabilizar o retropé
- Solado em balancim, que reduz a pressão sobre o antepé durante o passo
- Biqueira alta, acomodando dedos em garra
Órtese suropodálica (AFO)
Indicada quando há pé caído associado à neuropatia, instabilidade de tornozelo ou pé de Charcot em fase inicial.
Órtese tipo CROW (Charcot Restraint Orthotic Walker)
Dispositivo rígido em concha total, indicado no pé de Charcot. Envolve o pé e a perna, imobilizando e distribuindo a carga por toda a superfície, protegendo a estrutura óssea durante a fase ativa da doença.
Dispositivos de descarga para úlcera ativa
Quando já existe úlcera, o tratamento exige retirar completamente a carga da região. Isso pode ser feito com órtese removível, gesso de contato total ou dispositivos específicos, conforme a indicação da equipe que trata a ferida.
Prótese ou palmilha após amputação parcial
Depois de amputação de dedo, transmetatarsiana, Lisfranc ou Chopart, a palmilha com preenchimento passa a ser essencial para redistribuir a carga que mudou de lugar.
O autocuidado diário
Nenhum dispositivo funciona sozinho:
- Inspecione os pés todos os dias, incluindo entre os dedos e a sola, usando espelho ou pedindo ajuda
- Nunca ande descalço, nem dentro de casa, nem por poucos passos
- Confira o interior do calçado com a mão antes de calçar
- Não use bolsa de água quente nem aqueça os pés próximo a fontes de calor
- Não corte calos nem use calicidas — procure profissional
- Corte as unhas retas, sem cavar os cantos
- Hidrate a pele, evitando o espaço entre os dedos
- Procure o serviço imediatamente ao ver qualquer ferida, bolha, mudança de cor, inchaço ou calor local
- Controle glicêmico — é a base de tudo
Perguntas frequentes
Se eu não sinto dor, preciso mesmo de palmilha?
Sim — e justamente por isso. A ausência de dor indica neuropatia, que é o principal fator de risco para úlcera. A palmilha é preventiva.
Palmilha de farmácia serve?
Não para pé diabético com neuropatia ou deformidade. Palmilha genérica pode criar novos pontos de pressão. Nesse caso, sob medida não é preferência, é indicação.
Com que frequência trocar a palmilha?
O material comprime e perde a capacidade de amortecer com o uso. Revisão periódica é necessária, e o intervalo deve ser definido pela equipe conforme peso, atividade e material.
Já tenho uma úlcera. Palmilha resolve?
Úlcera ativa exige tratamento específico de descarga, geralmente mais rigoroso que uma palmilha comum, junto com o cuidado da ferida. Procure o serviço.
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Fisioterapeuta — CREFITO-4 nº 34657, responsável técnico e diretor clínico da 4Bionic. Revisado em agosto de 2026.
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