A amputação transtibial acontece através da tíbia e da fíbula, abaixo do joelho. É popularmente chamada de “amputação abaixo do joelho” e é o nível mais frequente de amputação de membro inferior.
Também é o nível com melhor prognóstico funcional — e o motivo é simples: o joelho é preservado.
Este é o seu caso?
Provavelmente sim, se:
- A amputação foi na perna, abaixo do joelho
- Você consegue dobrar e esticar o joelho do lado amputado
- Existe um coto de perna, de comprimento variável
- No laudo aparece “amputação transtibial” ou “amputação de perna”
O comprimento do coto é classificado assim:
- Coto longo — mais de metade da tíbia preservada. Boa alavanca, mas a extremidade tem menos cobertura muscular e circulação mais limitada.
- Coto médio — em torno da metade da tíbia. É considerado o comprimento mais favorável, com bom equilíbrio entre alavanca e cobertura de tecidos.
- Coto curto — menos de um terço da tíbia. Exige encaixe com maior contenção, às vezes com apoio acima dos côndilos do fêmur.
Por que preservar o joelho muda tudo
O joelho é a articulação que absorve impacto, permite dobrar a perna para avançar e controla a descida em rampas e escadas. Quando ele é preservado:
- O gasto energético para caminhar aumenta bem menos — a literatura aponta algo em torno de 20% a 25% acima do normal, contra 50% a 70% na transfemoral
- A marcha fica mais natural e o aprendizado é mais rápido
- A taxa de pessoas que voltam a caminhar de forma independente é significativamente maior
- Subir e descer escadas alternando os pés fica mais acessível
Por isso o cirurgião faz o possível para preservar o joelho, mesmo quando isso significa um coto curto.
Causas
- Diabetes e doença vascular periférica — a causa mais comum. Costuma vir depois de úlcera de pé que não cicatriza ou de infecção.
- Trauma — acidentes de trânsito, de trabalho e ferimentos
- Infecção grave — osteomielite, fasciíte necrotizante
- Tumores — da tíbia ou de partes moles da perna
- Malformação congênita
Prótese indicada
O encaixe
- Encaixe PTB (apoio no tendão patelar) — desenho clássico, que concentra a carga em áreas tolerantes à pressão, principalmente o tendão patelar, e alivia áreas sensíveis como a crista da tíbia e a cabeça da fíbula.
- Encaixe TSB (contato total) — distribui a carga por toda a superfície do coto, em vez de concentrar em pontos. Usado com liner de silicone ou gel. Tende a oferecer mais conforto e é o padrão mais comum hoje.
- Encaixe com apoio supracondiliano — envolve os côndilos do fêmur, indicado em cotos curtos ou quando é necessária estabilidade lateral adicional.
Suspensão da prótese
É o sistema que impede a prótese de sair ao levantar a perna.
- Liner com pino de travamento — o liner de silicone ou gel veste o coto e trava por um pino na base do encaixe. Simples e seguro.
- Sucção — a saída de ar cria vácuo que segura a prótese
- Vácuo elevado — bomba mecânica ou elétrica mantém vácuo ativo, o que reduz o movimento do coto dentro do encaixe e ajuda no controle de volume
- Manga de suspensão — sobreposta ao joelho, funciona sozinha ou como complemento
- Cinto supracondiliano — opção mais simples, ainda usada em alguns casos
O pé protético
- Pé SACH — sem articulação, com calcanhar amortecedor. Simples, resistente e de baixo custo. Adequado para baixo nível de atividade.
- Pé articulado — permite movimento do tornozelo, útil em terreno irregular
- Pé dinâmico de resposta — armazena e devolve energia a cada passo, com uso frequente de fibra de carbono. Indicado para nível de atividade moderado a alto.
- Pé com tornozelo hidráulico — adapta-se melhor a rampas e superfícies desniveladas
- Pé microprocessado — ajusta o ângulo do tornozelo em tempo real conforme o terreno, com o maior custo entre as opções
- Pé para atividade específica — lâminas de corrida, pés para água e para esportes
Reabilitação
Antes da prótese
- Enfaixamento do coto em forma de oito, para controlar o edema e moldar o formato — isso acelera muito a protetização
- Prevenção de contratura em flexão do joelho. Não durma com travesseiro sob o joelho e evite ficar com o joelho dobrado por longos períodos
- Fortalecimento de quadríceps, glúteos e tronco
- Dessensibilização do coto: toque, texturas, massagem da cicatriz
- Treino de equilíbrio em apoio unipodal e de transferências
Com a prótese
- Colocação e retirada corretas, verificação de dobras no liner
- Descarga de peso progressiva
- Treino de marcha entre barras, depois com andador, muleta e sem auxílio
- Rampas, escadas, terrenos irregulares
- Levantar do chão e treino de queda segura
- Retorno a atividades específicas: trabalho, direção, esporte
Cuidado diário com a pele
Inspecione o coto todos os dias, com espelho se necessário. Procure vermelhidão que não desaparece em 20 minutos após retirar a prótese, bolhas, feridas ou áreas endurecidas. Lave o coto e o liner diariamente e seque bem. Em pessoas com diabetes esse cuidado é ainda mais crítico, porque a sensibilidade pode estar reduzida e uma ferida pode passar despercebida.
Perguntas frequentes
Quanto tempo depois da cirurgia posso usar prótese?
Depende da cicatrização e da estabilização do volume do coto. É comum que o processo comece entre algumas semanas e alguns meses após a cirurgia. Cotos que foram bem enfaixados e trabalhados chegam prontos mais cedo.
Vou voltar a andar normalmente?
A amputação transtibial tem o melhor prognóstico entre os níveis de membro inferior. Muitas pessoas retornam à marcha independente, ao trabalho e a atividades físicas. O resultado depende de condicionamento, causa da amputação, presença de outras doenças e consistência na reabilitação.
Meu coto mudou de tamanho, a prótese ficou folgada. É normal?
Sim, especialmente no primeiro ano. O coto perde volume conforme o edema diminui e a musculatura se reorganiza. Meias de coto de diferentes espessuras ajudam a compensar temporariamente, mas se a folga persistir, o encaixe precisa ser revisto. Prótese folgada machuca e aumenta o risco de queda.
Posso tomar banho com a prótese?
A prótese do dia a dia geralmente não deve ser molhada. Existem próteses específicas para banho e piscina. Consulte a equipe antes de expor o equipamento à água.
Posso correr?
Sim, com o componente adequado. Lâminas de corrida são projetadas para isso e exigem treino específico. A prótese do dia a dia não é feita para corrida.

Fisioterapeuta — CREFITO-4 nº 34657, responsável técnico e diretor clínico da 4Bionic. Revisado em agosto de 2026.
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