A rotationplasty — também chamada de rotação de Van Nes — é um dos procedimentos mais engenhosos da ortopedia, e um dos mais difíceis de aceitar à primeira vista.
Nela, a região do joelho é removida, a parte inferior da perna é rodada 180 graus e fixada ao fêmur remanescente. O pé passa a apontar para trás, e o tornozelo assume a função de joelho.
Como isso funciona
Parece contraintuitivo até você entender a mecânica.
O joelho dobra para trás. O tornozelo, quando você aponta o pé para baixo, também se move para trás. Ao rodar a perna 180 graus, esse movimento fica invertido em relação ao corpo: a flexão plantar do tornozelo passa a produzir extensão do “joelho”.
O resultado é que a pessoa passa a ter uma articulação ativa, controlada pela sua própria musculatura, com sensibilidade preservada e sem nenhum atraso de resposta. O calcanhar se apoia dentro do encaixe da prótese e o pé rodado comanda o joelho protético diretamente.
O ganho funcional: por que vale a pena considerar
Este é o ponto central, e ele é substancial.
Sem rotationplasty, um tumor no joelho que exige ressecção ampla resultaria em uma amputação transfemoral — sem joelho, com joelho protético passivo e gasto energético em torno de 50% a 70% acima do normal.
Com rotationplasty, o paciente fica funcionalmente equivalente a uma amputação transtibial, com joelho ativo próprio. Isso significa:
- Gasto energético para caminhar muito menor
- Controle ativo da articulação, com musculatura e sensibilidade próprias
- Capacidade de correr, saltar e praticar esporte, incluindo esporte de impacto
- Estabilidade que nenhum joelho protético, nem mesmo microprocessado, reproduz
- Em crianças, preservação da placa de crescimento do tornozelo, permitindo que o membro continue crescendo
Os desfechos funcionais e a satisfação relatada por pacientes submetidos ao procedimento são consistentemente bons na literatura.
A questão que ninguém deve minimizar: a aparência
O membro fica com aparência incomum. O pé aponta para trás, e isso é visível quando a pessoa está sem a prótese — no banho, na praia, ao trocar de roupa.
Essa é a razão pela qual muitas famílias recusam o procedimento, e é uma razão legítima. Aparência importa, especialmente na adolescência, e ninguém deve ser convencido a ignorar isso.
O que a experiência mostra: crianças operadas mais cedo tendem a incorporar a aparência com naturalidade, porque crescem com aquele corpo. Adolescentes, que já construíram uma imagem corporal, costumam ter mais dificuldade.
Duas coisas ajudam nessa decisão:
- Ver vídeos de pacientes operados, andando, correndo e praticando esporte. A função costuma mudar a percepção sobre a aparência.
- Conversar com famílias que passaram por isso, e com quem recusou. As duas perspectivas são valiosas.
Quando é indicada
- Sarcomas ósseos do fêmur distal ou da tíbia proximal — principalmente osteossarcoma e sarcoma de Ewing, em crianças e adolescentes
- Deficiência femoral congênita grave, em casos selecionados
- Falha de reconstrução prévia com endoprótese ou enxerto
- Infecção ou trauma com destruição extensa da região do joelho
A indicação é oncológica ou ortopédica especializada, e a decisão envolve equipe multiprofissional, incluindo psicologia — o que é apropriado, dada a natureza da escolha.
A prótese
Do ponto de vista protético, a rotationplasty é tratada essencialmente como uma amputação transtibial:
- Encaixe que envolve o pé rodado, transmitindo o movimento do tornozelo para a prótese. É um encaixe específico e requer experiência do protetista.
- Pé protético conforme o nível de atividade — e o nível costuma ser alto
- Suspensão aproveitando a conformação do pé e do tornozelo
- Revestimento cosmético, quando desejado
- Em crianças, acompanhamento e trocas frequentes pelo crescimento
Reabilitação
- Treino de uso do tornozelo como joelho — a coordenação precisa ser aprendida, mas costuma ser adquirida rapidamente, porque o movimento já é natural
- Fortalecimento da musculatura da panturrilha, que agora comanda a extensão do “joelho”
- Treino de marcha, corrida e atividades de impacto
- Cuidado com a pele do pé, que passa a receber carga em posições diferentes
- Acompanhamento psicológico, especialmente em adolescentes
- Retorno ao esporte, frequentemente possível em alto nível
Perguntas frequentes
Isso é real?
Nunca ouvi falar. É um procedimento estabelecido, realizado há décadas em centros de oncologia ortopédica no mundo todo, com resultados funcionais bem documentados. É pouco conhecido do público porque é indicado em situações específicas.
Meu filho vai poder correr?
Uma das grandes vantagens é justamente permitir atividade de alto impacto, incluindo corrida e esporte. É um dos motivos pelos quais o procedimento é considerado em crianças e adolescentes ativos.
A aparência é muito estranha?
Com a prótese e a calça, o membro tem aparência convencional. Sem a prótese, o pé rodado é visível e a aparência é incomum. Essa é a principal razão de recusa, e é uma consideração legítima que deve ser conversada abertamente com a criança quando a idade permitir.
É melhor que uma prótese de fêmur (endoprótese)?
São caminhos diferentes, com vantagens distintas. A endoprótese preserva a aparência do membro, mas tem limitação de atividade de impacto e frequentemente exige revisões cirúrgicas ao longo da vida. A rotationplasty oferece função superior e mais durabilidade, com o custo estético. A decisão é da equipe oncológica junto com a família.
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Fisioterapeuta — CREFITO-4 nº 34657, responsável técnico e diretor clínico da 4Bionic. Revisado em agosto de 2026.
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